O sistema educacional é descrito como “97% quebrado”1 ou fundamentalmente quebrado2. Salman Khan, autor do livro revisado, oferece uma história profundamente pessoal sobre por que a educação não funciona e como a IA pode ser a solução2. A resenha sugere que Khan está profeticamente certo sobre o futuro da aprendizagem, ou estamos à beira de uma catástrofe educacional espetacular2.

Historicamente, no século XVIII, surgiu a ideia utópica de oferecer educação pública em massa a todos3. Como não havia recursos para dar a cada aluno um tutor pessoal, os estudantes foram agrupados em turmas de cerca de 30, com processos padronizados, geralmente através de palestras e avaliações periódicas3. Os resultados desse sistema são alarmantes4. Uma análise da Gallup de 2020 indicou que 54% dos americanos entre 16 e 74 anos liam abaixo do nível da sexta série4. A maioria dos formados no ensino médio nos EUA que vão para a faculdade nem sequer alcança o nível de matemática universitária, e três quartos não possuem proficiência básica em escrita4. Em Detroit, antes da COVID-19, apenas 6% dos alunos da oitava série estavam no nível de proficiência adequado, caindo para 3% após a pandemia4. Isso significa que 97% dos alunos em uma das principais cidades americanas estão falhando em atender aos padrões básicos4. O autor da resenha compara essa taxa de sucesso de 3% a um tratamento médico que seria banido ou a uma ponte que seria demolida, mas na educação, a reação é encolher os ombros e culpar professores, pais ou os próprios alunos4.

O “Problema Dois Sigma” de Bloom

Um conceito crucial mencionado é o “Problema Dois Sigma” de Benjamin Bloom5. Em 1984, Bloom quantificou o que os professores sempre souberam: a tutoria individualizada é mágica5. Alunos que trabalham com um tutor pessoal obtêm uma melhoria de “dois sigma” – ou seja, dois desvios padrão, o que se traduz em saltar do percentil 50 para o percentil 965. Em outras palavras, um aluno médio com um tutor tem um desempenho melhor do que 96% dos alunos em uma sala de aula tradicional5.

Essa descoberta deveria ter revolucionado a educação3. No entanto, tornou-se conhecida como o “Problema Dois Sigma de Bloom” porque ninguém conseguiu descobrir como escalá-la3. É inviável dar a cada estudante seu próprio tutor pessoal, como Alexandre, o Grande teve Aristóteles3.

A Entrada das Máquinas: IA como Potencial Solução

É aqui que a história de Khan fica interessante6. No início de 2023, antes mesmo do ChatGPT-4 ser lançado publicamente, Sam Altman e Greg Brockman da OpenAI visitaram a Khan Academy e permitiram que Khan testasse o novo modelo6. A reação imediata de Khan foi: “Isso muda tudo”6.

A razão para essa reação é que, pela primeira vez na história humana, podemos ter a tecnologia capaz de fornecer a cada aluno seu próprio tutor pessoal6. Embora não seja um tutor perfeito como Aristóteles, é algo que poderia trabalhar com os alunos “em seu próprio tempo e ritmo” – o ingrediente chave na fórmula de Bloom para a tutoria eficaz6.

Objeções e o Argumento da Fraude

A resposta inicial do sistema educacional foi rápida e previsível: banir a IA7. Grandes distritos escolares nos EUA, como Los Angeles Unified, Seattle, Nova York, Fairfax County e Montgomery County, proibiram o ChatGPT7. As razões eram sempre as mesmas: permite a fraude, não desenvolve habilidades de pensamento crítico, destruirá a capacidade de escrita7. Enquanto isso, na China, o governo tornou obrigatória a educação em IA a partir da primeira série7.

O autor da resenha critica o que ele chama de “tecnofobia reflexiva” e a incapacidade de ver o potencial transformador da IA além da interrupção imediata8.

O argumento da fraude é particularmente irritante para o autor, sendo a objeção mais comum e, em sua opinião, a mais obviamente errada8. Khan aponta que a desonestidade acadêmica não é nova8. Já em 2019, bem antes do lançamento público do ChatGPT, existia uma indústria próspera de pessoas em países como Nigéria e Quênia escrevendo ensaios para estudantes universitários nos EUA e outros países ricos8…. Em Silicon Valley, pais pagam caro por consultores de admissão que essencialmente escrevem os ensaios de seus filhos9. Uma pesquisa constatou que 47% dos alunos acham que usar sites para encontrar respostas de lição de casa é “um pouco ou muito aceitável”9. Para o autor, o cavalo da fraude já saiu do celeiro e está galopando pelo condado ao lado9. Banir o ChatGPT é como banir calculadoras porque os alunos podem usá-las em testes de aritmética; isso perde completamente o foco9.

Uma visão forte do autor da resenha é que devemos permitir que os alunos submetam trabalhos gerados por IA e avaliá-los pela qualidade10. Se alguém usa ChatGPT para escrever lixo, recebe um F (nota baixa); se criam prompts brilhantes que produzem trabalhos excepcionais, recebem um A (nota alta)10. Isso ocorre porque, para o autor, prompting é escrita, é pensamento, é o mesmo processo cognitivo de estruturar ideias e argumentos, apenas com uma interface diferente10.

Como a Tutoria com IA se Parece na Prática

Salman Khan está principalmente interessado na IA como tutora10. Os exemplos que ele fornece são descritos como genuinamente surpreendentes10.

Um exemplo é Saanvi, uma aluna da nona série na Índia lendo O Grande Gatsby11. Ela está com dificuldade em entender por que Gatsby fica olhando para a luz verde11. Em vez de procurar resumos online, ela abre o Khanmigo (o tutor de IA da Khan Academy) e pede para falar com o próprio Jay Gatsby11. O tutor de IA, assumindo a persona de Gatsby, explica que a luz verde é um símbolo de seus sonhos e desejos, situada no final do píer de Daisy Buchanan, representando seu anseio pelo passado e esperança de se reunir com ela11. Saanvi chega a ter uma conversa com o personagem, pedindo desculpas por tomar seu tempo, e “Gatsby” a lembra gentilmente que é apenas uma simulação de IA12.

Isso é visto como uma mudança fundamental na forma como podemos nos envolver com o conhecimento12. Em vez de consumo passivo – ler sobre figuras históricas ou literárias – os alunos podem ter diálogos ativos com simulações deles12. A resenha sugere imaginar debater filosofia com Sócrates, discutir física com Einstein ou coescrever os Artigos Federalistas com Hamilton12.

Outro exemplo de Khan é usar o Khanmigo para explorar a Segunda Emenda da Constituição dos EUA13. Ao digitar: “Por que temos a Segunda Emenda? Parece loucura!”, em vez de dar uma palestra ou assumir uma posição política, a IA responde: “Por que você acha que os Fundadores incluíram a Segunda Emenda para começar?”13. Essa abordagem é socrática, empurrando o aluno a pensar mais profundamente sem impor seus próprios pontos de vista13. O autor questiona se seria possível obter esse tipo de neutralidade de um professor humano sobre o controle de armas13.

A Bomba-Relógio da Desigualdade

Khan argumenta que a desigualdade educacional não é apenas injusta, mas uma ameaça existencial, chamando-a de “bomba-relógio global de desigualdade educacional”13…. Os números sustentam isso: Louisiana gasta US$ 10.000 por aluno por ano, enquanto Nova York gasta US$ 40.00014. Na Índia, escolas governamentais gastam entre US$ 500 e US$ 1.200 por aluno, e 25% dos professores estão ausentes da escola em qualquer dia14. Em todo o mundo, meninas têm o dobro de probabilidade de nunca pisar em uma sala de aula14.

Essa desigualdade se agrava ao longo de gerações14. Famílias afluentes contratam tutores, usam serviços de preparação para testes, pagam por consultores universitários, obtendo assim o “impulso de dois sigma”14. Todos os outros ficam cada vez mais para trás14. A IA poderia ser o grande equalizador, dando a uma criança em áreas rurais ou em vilas na Índia acesso à mesma qualidade de instrução personalizada que o filho de um bilionário em Silicon Valley14. No entanto, isso só é possível se permitirmos que eles a usem15.

O Apocalipse de Empregos (Ou Não)

Khan dedica espaço significativo à questão dos empregos em um mundo com IA15. Estudos iniciais de Wharton mostram melhorias de produtividade de 30-80% em tarefas analíticas de colarinho branco usando IA15. Posições de nível básico em tecnologia, consultoria, finanças e direito estão evaporando15.

A solução de Khan é que precisamos “inverter a pirâmide do trabalho”15. Em vez de muitas pessoas realizando tarefas rotineiras supervisionadas por poucas realizando trabalho criativo, todos precisam se tornar o que Daniel Priestley chama de “generalistas de alta capacidade” – pessoas com habilidades amplas que podem orquestrar a IA para resolver problemas15…. Khan escreve que estamos retornando a uma experiência pré-Revolução Industrial, semelhante a um artesão16. Um pequeno grupo de pessoas que entendem engenharia, vendas, marketing, finanças e design será capaz de gerenciar “exércitos de IA generativa”16. Isso pode ser incrivelmente empolgante ou totalmente aterrorizante, dependendo se acreditamos que podemos retreinar bilhões de pessoas rápido o suficiente16. Khan é otimista, mas apenas se reimaginarmos completamente a educação começando agora16.

Star Trek vs. Blade Runner

A seção mais instigante do livro explora dois futuros possíveis17. Em um, temos Star Trek: uma sociedade pós-escassez onde todos são educados, criativos e livres para explorar seu potencial17. No outro, temos uma distopia de desemprego em massa, falta de propósito e suscetibilidade a demagogos17. Khan afirma claramente que, se não agirmos, as sociedades cairão cada vez mais presas ao populismo, pois pessoas com tempo, mas sem senso de propósito ou significado, não tendem a ser boas para si mesmas ou para os outros17. A diferença entre esses futuros? Se abraçamos a IA na educação agora ou continuamos a combatê-la18.

A Revolução Subestimada

O autor da resenha acredita que Khan subestima o quão revolucionária a IA será para a educação18. Khan foca principalmente na IA como um mecanismo de entrega melhor para a aprendizagem tradicional, mas o autor questiona se o próprio conceito de “aprendizagem” está prestes a mudar18. Se a IA pode escrever, codificar e analisar melhor do que a maioria dos humanos, por que aprender essas habilidades? É como ensinar caligrafia após a invenção da prensa tipográfica18. Khan toca nisso brevemente, citando Bill Gates sobre o “paradoxo desconcertante”: temos ferramentas que facilitam a aprendizagem, mas elas também fazem as pessoas questionar se precisam dessas habilidades19.

A resposta sugerida é que precisaremos reconceitualizar completamente para que serve a educação19. Não para nos tornar economicamente valiosos (a IA fará isso melhor), mas para nos tornar mais humanos, para nos ajudar a fazer melhores perguntas, pensar de forma mais criativa, conectar ideias entre domínios19. Em outras palavras, a educação precisa nos transformar no tipo de pessoas que podem trabalhar com a IA, em vez de serem substituídas por ela19.

Conclusão: A Onda da IA Está Chegando

A resenha conclui que, embora o livro possa ser visto como um anúncio para a Khan Academy, Khan está certo sobre o problema fundamental (o sistema educacional está catastroficamente quebrado) e sobre a solução (tutoria personalizada)20. A IA pode finalmente tornar essa solução escalável20.

A questão não é se a IA transformará a educação, mas se permitiremos que ela a transforme a tempo de importar20. Cada dia gasto banindo o ChatGPT em vez de integrá-lo é mais um dia em que a China avança, mais uma coorte de alunos fica para trás, mais um passo em direção à distopia em vez do futuro de Star Trek20.

Khan finaliza com a mensagem de que a IA generativa está aqui para ficar21. A metáfora usada é a de um tsunami de IA que recuou da costa e agora está avançando em direção a nós21. Diante da escolha entre fugir dele ou surfar nele, Khan acredita em pular de cabeça21. O autor da resenha concorda e conclui que o tsunami está chegando, quer gostemos ou não21. A única pergunta é: ensinaremos nossos filhos a surfar?21.

É importante notar que a resenha é baseada na edição de maio de 2024 do livro, e dada a rapidez da evolução da IA, algumas previsões de Khan podem já estar desatualizadas ou até muito conservadoras, pois vivemos em tempos exponenciais22.

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