Inflação: o que é e como ela afeta o seu dinheiro

Para quem ainda não o conhece, quem é Dioner Segala?

Sou economista, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Tenho interesse por diversos assuntos, incluindo estatística, finanças e moedas digitais. Minha monografia teve como tema as causas e consequências da inflação durante o Plano Real, na perspectiva da Escola Austríaca de Economia. Estudo filosofia, invisto em bitcoins e sou amante dos livros.

Agora, vamos às principais perguntas do bate papo.

1. O que é inflação?

Esse é um tema que eu considero bastante controverso. Por muito tempo, o significado original da palavra inflação foi expansão da oferta monetária, isto é, inflação monetária. Aparentemente, o inicio do século XX trouxe uma revolução semântica, que modificou o seu significado. Inflação passou a significar aumento contínuos no nível de preços.

Particularmente, eu adoto o significado original. É importante frisar que aumentos e quedas de preços sempre vão existir. Preços, de quaisquer bens e serviços, não são estáveis; eles são afetados por diversas variáveis, como produção agrícola, custo de transporte, demanda, etc. Só existe uma coisa que pode levar a aumentos contínuos nos preços de bens e serviços: a expansão da oferta monetária.

Milton Friedman, um grande economista, foi certeiro: a inflação é, em todo e qualquer tempo e lugar, um fenômeno estritamente monetário. Assim, podemos dizer que a inflação monetária é a causa, e o aumento contínuo dos preços é a sua consequência mais conhecida, que leva a outras consequências, como ciclos econômicos, mas não quero me alongar aqui, porque é possível escrever um livro a respeito disso. Ainda, eu considero importante falar que o conceito de nível de preços não é correto, pois passa uma mensagem de que os preços aumentam (ou caem) igualmente, o que não é verdade.

2. Como ela funciona?

Definido o que é inflação, isto é, uma expansão da oferta monetária, podemos passar a discutir como ela funciona. Na prática, quando a autoridade monetária decide fazer uma política monetária expansionista, ele está aumentando a oferta de moeda. O que acontece quando aumentamos a oferta de um bem ou serviço, com tudo o mais constante? Seu preço cai.

Acontece que o preço da moeda é o seu poder de compra; assim, se você tem uma oferta maior de moeda na economia, seu poder de compra diminui. Então, você precisa de mais unidades monetárias para comprar a mesma quantidade de bens, o que é a mesma coisa que dizer que os preços aumentaram.

É claro que esses aumentos não são proporcionais, e não atingem da mesma forma a todos os indivíduos, o tempo todo, pois são diversas as variáveis que podem afetar os preços dos bens e serviços: problemas na oferta (ou uma oferta abundante causada por uma supersafra), transporte, demanda, etc.

O que ocorre, de fato, é um efeito redistributivo às avessas na renda: os primeiros a receberem esse dinheiro novo (geralmente os mais próximos do governo) terão mais moeda em sua posse, e poderão aumentar a sua demanda; quando aumentam a demanda por determinados bens, tudo o mais constante (e a oferta sempre demora para atender um aumento de demanda, por conta da necessidade de produção), o preços desses bens aumentam.

Os próximos a receberem o dinheiro novo ainda terão alguma vantagem, e assim por diante, até chegarmos aos mais pobres, que receberão uma parcela pequena desse dinheiro, e precisarão de mais unidades monetárias para efetivar as suas compras. Acabei me alongando nessa resposta, mas, em resumo, é isso.

Duas sugestões de livros bem básicos (é claro que existem livros mais avançados) para entender melhor esses conceitos é:

3. Inflação e IPCA são a mesma coisa?

Não são. Inflação, como eu disse, é expansão monetária. Ainda que façamos uma concessão, assumindo que o conceito de aumentos contínuos de preços é correto, também não são iguais. O IPCA é um índice – o índice oficial da inflação brasileira – criado pelo IBGE, para medir a variação média dos preços de uma certa cesta de bens e serviços, em uma determinada economia, e em determinado período. É calculado através de uma média ponderada, com pesos atribuídos a cada bem e serviço, de maneira a representar o mais fielmente possível a cesta de bens e serviços do brasileiro. Não vou entrar em detalhes técnicos aqui, porque não creio que sejam detalhes interessantes.

Isso pode ser um problema, já que cada indivíduo tem a sua cesta de bens, e ela geralmente será diferente da média – esse é um dos motivos que faz com que muitas pessoas não sintam que os preços caíram, quando eles vão ao supermercado. O outro motivo é que quando o IPCA está baixo, o que está acontecendo é que os preços estão subindo menos, mas continuam subindo.

4. O que, definitivamente, faz a inflação oscilar?

Em economia é bastante difícil falar em “definitivamente”, dado que há diversas escolas de pensamento discutindo e debatendo sobre causas e consequências de todos os fenômenos, o tempo todo. Mas, o argumento lógico que mais se aproxima da realidade, é que aumentos contínuos de preços só podem ser causados por expansões monetárias. Oscilações de preços é algo comum. Os preços oscilam de acordo com a demanda por e a oferta de determinado bem. Isso sempre ocorreu e sempre ocorrerá.

5. O dinheiro é o alvo da inflação. Mas, o que ela afeta principalmente?

Na verdade, o alvo da inflação é uma meta de estabilidade de preços. Para isso, as autoridades monetárias de um país utilizam de políticas monetárias, expandindo (ou contraindo) a oferta monetária, o que leva a queda (ou aumentos) na taxa de juros. Aqui no Brasil, existem alguns instrumentos de política monetária, sendo eles as operações de mercado aberto (quando o governo compra e vende títulos da dívida pública), taxas de redesconto e o compulsório. Caso alguém queira entender melhor esses instrumentos, como funcionam, posso explicar em outro momento.

Essa meta de estabilidade de preços (aquela meta que nós ouvimos nos jornais, que o governo definiu a meta para o IPCA em 4% com bandas de variação de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo) vem da ideia de estabilidade no nível de preços. O Banco Central irá operar, através dos instrumentos citados, para expandir ou contrair a oferta monetária, de maneira a estabilizar os aumentos de preços em, no máximo, 6% (a meta varia de ano a ano). Assim, o que é afetado diretamente é o poder de compra de todos os indivíduos.

6. Uma quantia em dinheiro hoje, vale menos do que ontem?

Aqui no Brasil, sim. Por exemplo, o Plano Real foi lançado em julho de 1994 (sua fase final). Quem tivesse R$ 100,00 naquela época, e tivesse guardado em sua carteira, teria algo entre R$ 18,00 e R$ 19,00 hoje (a última conta que eu fiz foi em meados de 2017). É uma perda de mais de 80% no seu poder de compra; o IPCA (o índice de inflação oficial) acumulado está em mais de 450%.

Mas, em outros países, que não praticam a desvalorização de sua moeda, como a Suíça, o dinheiro deles geralmente mantém o seu poder de compra por longos anos. Ou o Bitcoin, que, em geral, sempre vale mais hoje do que ontem.

7. Sendo assim, vale a pena guardar dinheiro?

Guardar dinheiro embaixo do colchão, não. Apesar da relativa segurança de ninguém te roubar, o governo (o monopolista da emissão monetária) estará te “roubando”, dia após dia, através de políticas monetárias que fazem com que seu dinheiro tenha menos valor hoje do que ontem (como citei o exemplo na pergunta anterior).

Temos que lembrar que expansões contínuas da oferta monetária podem levar à hiperinflação e ao completo colapso da moeda e sua inutilização – e o século XX é campeão de demonstrar isso empiricamente, sendo o Brasil um dos exemplos de maior hiperinflação da história, junto com diversos outros países como Hungria, Alemanha, etc. Mas, se você deixar as suas economias em aplicações que rendem, em média, mais que a inflação, então você está num bom caminho para se proteger da inflação.

8. Tem como fugir da inflação?

Claro, usando criptomoedas! Hahahaha (estou brincando, mas tem um fundo de verdade nisso). Temos algumas alternativas, sim. Procurar rendimentos que tenham como retorno uma taxa acima da inflação é uma das formas; guardar o seu dinheiro em outras moedas, mais fortes, também é outra forma. Cada caso é um caso.

O importante é que cada indivíduo tem suas peculiaridades; cada indivíduo tem a “sua” inflação de preços, o quanto os preços dos bens que ele consome aumentam ou diminuem, assim como cada um tem a sua aversão ao risco, as suas necessidades, por isso é preciso analisar cada indivíduo mesmo. Não tem receita de bolo que sirva para todo mundo, alguns serão mais conservadores, outros serão mais arrojados. Caminhos existem, e o estudo é o primeiro passo para chegar até eles.

9. O que você acha que o Brasil precisa para melhorar os resultados em relação à inflação?

Um dos graves problemas que eu percebo no Brasil é a base de política de crescimento da economia. Temos, historicamente, a cultura de apostar no consumo como motor do crescimento. Dessa forma, um dos principais instrumentos para expandir o consumo é o aumento do crédito. Em geral, o crédito, principalmente quando não lastreado em poupança – outro problema brasileiro, nós temos taxas de poupança muito baixas, o que demonstra que temos uma alta preferência temporal – leva a expansões artificiais que, inevitavelmente, vão criar uma espécie de bolha. Veja o caso do mercado imobiliário brasileiro:

O governo apostou no sonho da casa própria, facilitou o crédito, com juros subsidiados – abaixo da inflação -, diversas pessoas resolveram começar a construir prédios, com pouca experiência na área, os preços dos imóveis aumentaram, isso levou a mais interesse em construir, mas, quando o crédito foi reduzido (porque não havia mais de onde tirar para emprestar), diversas construtoras quebraram, e prédios ficaram inacabados. A demanda por imóveis era artificial. Parece que somente agora que o mercado imobiliário começa a se recuperar, mas ainda não vi muitos indicadores de melhoria.

Muitos economistas também gostam de dizer que precisamos desvalorizar nossa moeda, frente ao dólar, para incentivar a exportação (para proteger nossa indústria e nossa agricultura). Que essa seria uma grande receita para nos levar ao crescimento econômico. Eu discordo veementemente! Isso leva a diversos problemas, e o aumentos de preços é um deles, por diversos motivos. Um contraponto a essa ideia, e que esses economistas não explicam, é que nossas exportações tiveram aumentos consideráveis, maiores que em diversas outras épocas, quando o Real se apreciou frente ao dólar. Isso é um grande problema brasileiro: damos ouvidos a intelectuais que não estão calcados na realidade dos fatos.

Como digo, não há receita de bolo. Mas, eu apostaria em ter uma moeda forte como uma condição necessária, mas não suficiente, para o crescimento do Brasil.

10. Como economista, qual a dica que você dá para as pessoas cuidarem melhor do próprio dinheiro?

Olha, Guilherme. É difícil dar dicas, ainda mais sem conhecer tão bem as pessoas. A principal delas é um clichê: estudem. Estudem para poder conhecer alternativas ao que o seu banco oferece. Estudem para entender para qual direção a política governamental está indo, para entender os ciclos econômicos. Estudem finanças pessoais, expliquem para os seus filhos como essas coisas funcionam, e quem sabe teremos um futuro melhor.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/infla%C3%A7%C3%A3o-o-que-%C3%A9-e-como-ela-afeta-seu-dinheiro-guilherme-bogo/?trk=eml-email_feed_ecosystem_digest_01-recommended_articles-4-Unknown&midToken=AQEbCno-g7xCJw&fromEmail=fromEmail&ut=2Iw0t22u9E6881