Você fala youtubês?

Você deve ter visto por aí um print com esta matéria da BBC, na qual pais brasileiros relatam que o YouTube está influenciado o jeito de os filhos falarem. Longe das salas de aula e dos colegas, essa galerinha tem passado grande parte do tempo jogando no celular e assistindo vídeos de criadores de conteúdo de várias regiões, sobretudo de São Paulo. Pegando uma carona de leve na linguística — campo que estuda a linguagem, funcionamento e desenvolvimento da língua —, o fenômeno pode ser visto em parte como passageiro. No caso, para a construção do sotaque é preciso um contato absurdo com elementos da fala — não só através do vídeo. Ou seja: além dos fatores sociais/históricos, existe todo um movimento da boca, língua e outros órgãos durante a pronúncia. Isso em longo prazo é bem complicado de se “copiar” e manter — embora não seja impossível. Por exemplo, a palavra “ar” continua com sonoridade diferente no RJ e no interior de MG, mesmo com o YouTube a todo o vapor…


Ela faz a fala dela

Na real, as crianças pegam gírias, construções de frases e expressões idiomáticas dos influencers, cujo uso pode sumir do dia para a noite do vocabulário. Mas também pode durar por mais tempo, espalhando-se pelo país, afinal a língua não é um fenômeno estático, briefers. Aliás, este estudo mostra que na fase inicial elas assimilam fonemas — unidade de som similar com valores diferentes, tipo do “p” e “b” em: “pata” e “bata” — mais facilmente com humanos do que só com vídeos, então equilibrar ainda é preciso. Por outro lado, o contato com uma certa variedade linguística pode diminuir a intolerância a sotaques estigmatizados. Se olharmos para trás, a mídia tradicional limitava apresentadores (inclusive de programas infantis) e repórteres ao eixo RJ-SP, com algumas exceções. Contudo, com a democratização da internet, temos ouvido figuras de todo o canto do país, através de vídeos, podcasts e até TV.


Aprontando altas confusões

Esse boom de internet pode continuar firme na vida do público infanto-juvenil do Brasil. O motivo é que o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou a extensão do ensino remoto até 31 de dezembro de 2021 em todos os níveis. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em abril de 2020, havia 1,5 bilhão de crianças fora das salas de aula (ou estudando de casa) em 2020, então a chance de um volume considerável delas sair por aí falando algum “youtubês” é alta. Enquanto isso, os pais ganham preocupações extras que ultrapassam as barreiras da língua. O acesso ao digital na fase infantil e jovem faz todo o sentido no mundo conectado em que vivemos, porém controlá-lo é outro ponto de alerta. A OMS diz que o contato com as telas não pode competir com outras ações básicas, como: sono, convívio humano, higiene e atividades físicas.


S.O.S.

Logo, o exagero influencia a saúde negativamente, ao estimular o sedentarismo, exposição a conteúdo prejudicial (sexual ou violento), ciberbullying, mudanças de humor, gastos (devido a publis) e até vício em games/apps. Da mesma forma, isso pode atrapalhar a concentração bem como o desempenho escolar e social. A organização ainda determina que bebês de até 1 ano não vejam conteúdo em dispositivos móveis. Quanto aos demais, durante a pandemia, sugere uma espécie de educação digital, na qual os pais definam horários de uso, falam sobre os perigos online e encorajam atividades diversas — leitura, artesanato, desenho, jogos de movimentação física etc. A OMS ainda orienta aos responsáveis o uso de ferramentas de segurança, moderação e rastreamento de atividades no meio digital.


Uma viajada rápida

A experiência com as techs é diferente em cada geração e, por isso, contribui com suas expectativas de vida e trabalho. Um relatório da Forrester, firma de pesquisa sobre tecnologia, prevê que 74% da força de trabalho em 2030 seja composta por millennials (nascidos entre 1980 e 1994) e membros da geração Z (nascidos entre 1995 e 2015). Portanto, com forte intimidade com esses recursos. A tendência também é que esse pessoal, sobretudo os mais jovens, busque recursos digitais cada vez mais personalizados — dentro e fora do serviço. Então, além da visão sobre o modo de falar, o que os pequeninos de hoje trarão de diferente para o futuro? A resposta fica para uma próxima edição, quem sabe…

Fonte: THE BRIEF