O Conselho Nacional de Educação aprovou as primeiras diretrizes nacionais para o uso de inteligência artificial no ensino brasileiro.
Entre as medidas está a proibição do uso autônomo por crianças até o 5º ano. Nessa faixa, a tecnologia deverá estar associada a uma atividade planejada e acompanhada pelo professor.
A notícia pode ser interpretada como uma restrição.
Eu prefiro enxergá-la como uma pergunta pedagógica:
quanta autonomia devemos entregar a uma ferramenta antes que o estudante desenvolva autonomia para julgá-la?
Essa questão não vale apenas para crianças.
Vivemos em um mundo no qual sistemas conseguem produzir textos, imagens, análises e recomendações em segundos. Ao mesmo tempo, petróleo próximo de US$ 95, guerras e juros globais mostram que decisões continuam sendo tomadas em contextos incompletos, incertos e contraditórios.
A ferramenta acelera a resposta.
Ela não assume a responsabilidade pela decisão.
É por isso que criatividade e pensamento crítico precisam entrar no centro do currículo. Não como matérias decorativas, mas como capacidades necessárias para formular perguntas, comparar alternativas, perceber riscos e agir diante da incerteza.
A OCDE vem pesquisando maneiras de desenvolver e avaliar essas competências. Entre as características associadas ao pensamento criativo aparecem curiosidade, imaginação, abertura a experiências, capacidade de considerar perspectivas diferentes e persistência.
Nenhuma delas se desenvolve apenas consumindo respostas prontas.
Elas exigem situações nas quais o estudante precise escolher, testar, errar, revisar e explicar seu raciocínio.
A cultura também aponta nessa direção.
Os microdramas verticais já reúnem dezenas de milhões de usuários e formam uma indústria bilionária. O formato não surgiu porque alguém simplesmente reduziu a duração de uma série tradicional. Surgiu porque criadores compreenderam outra tela, outro ritmo, outro comportamento de audiência e outra lógica de distribuição.
Criatividade é essa capacidade de redesenhar uma experiência quando o contexto muda.
Para gestores educacionais, a nova regulamentação oferece uma oportunidade.
Em vez de criar apenas uma lista de ferramentas permitidas e proibidas, podemos definir progressivamente o que o estudante precisa aprender para utilizar essas ferramentas com maior autonomia:
- formular perguntas;
- verificar informações;
- reconhecer incerteza;
- compreender consequências;
- declarar como utilizou a tecnologia;
- assumir responsabilidade pelo resultado.
A melhor educação para a era da automação não será aquela que automatizar tudo primeiro.
Será aquela que formar pessoas capazes de decidir o que não deveria ser automatizado.
