Oliver Sacks guardava uma lembrança extremamente vívida de uma bomba incendiária que teria caído perto de sua casa durante a Segunda Guerra Mundial.

Ele conseguia descrever o céu, as chamas e o medo.

Havia apenas um problema: Sacks não estava lá.

A cena havia sido narrada em uma carta enviada por seu irmão. Com o tempo, aquela descrição deixou de parecer uma história recebida e passou a ser experimentada como uma lembrança pessoal.

O episódio revela algo desconfortável: nossa memória não funciona como uma câmera.

Toda vez que lembramos, reconstruímos.

Selecionamos fragmentos, preenchemos lacunas, incorporamos informações posteriores e reorganizamos o passado de acordo com aquilo que sabemos e sentimos no presente.

Isso parece um defeito.

Mas talvez seja também uma das origens da criatividade.

Pesquisas em neurociência indicam que lembrar experiências passadas e imaginar situações futuras acionam parte de uma mesma rede cerebral. O hipocampo, associado à memória, também participa da recombinação de pessoas, lugares, emoções e acontecimentos em cenários que nunca existiram.

Em outras palavras: a mente utiliza peças do passado para construir possibilidades.

Uma memória perfeitamente rígida talvez preservasse melhor os fatos. Mas teria menos liberdade para desmontá-los, deslocá-los e combiná-los de maneiras inesperadas.

Isso não significa que ter uma memória ruim torna alguém criativo.

Significa que memória e imaginação compartilham uma característica importante: ambas são construtivas.

Criatividade raramente é produzir alguma coisa a partir do nada. É perceber uma conexão improvável entre elementos que já estavam disponíveis.

Uma conversa antiga encontra um problema atual.

Uma experiência da infância encontra uma nova tecnologia.

Uma ideia de outro setor encontra o desafio de um cliente.

Talvez por isso repertório seja tão importante. Quanto mais experiências, conhecimentos, imagens e emoções armazenamos, maior o número de peças que nossa imaginação pode reorganizar.

Existe um exercício simples para testar isso.

Escolha quatro lembranças diferentes:

— um lugar;
— uma pessoa;
— um problema;
— uma emoção.

Agora reúna esses elementos em uma única história, produto, aula ou solução.

O objetivo não é recordar corretamente.

É descobrir o que aparece quando o passado deixa de ser arquivo e se transforma em matéria-prima.

Talvez nossa memória não tenha evoluído apenas para preservar aquilo que aconteceu.

Talvez ela também exista para nos ajudar a imaginar aquilo que ainda pode acontecer.

Eu sou Luiz Guedes, founder e CEO do Grupo EPIC, especialista nas Novas Gerações. Por meio da Edtech.cool, ajudamos escolas, universidades e empresas a inovar seus conteúdos educacionais para um mundo cada vez mais dinâmico e inovador.

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